A organização não-governamental Human Rights Watch (HRW) lançou um alerta sobre o aumento do autoritarismo e o enfraquecimento da democracia em mais de cem países ao redor do mundo. O relatório anual da entidade, divulgado nesta quarta-feira (4), aponta principalmente os Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, além da Rússia e da China, como fatores que contribuem para essa situação preocupante.
O Impacto da Administração Trump nos EUA
Para a HRW, as ações do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foram decisivas para o declínio da proteção dos direitos humanos globalmente. Internamente, a administração foi criticada por reduzir a transparência e a prestação de contas do governo, atacar a independência da justiça e desrespeitar decisões judiciais.
O relatório destaca ainda cortes significativos em programas de ajuda alimentar e apoio à saúde, a revogação de direitos das mulheres, a dificuldade de acesso ao aborto, o enfraquecimento de medidas contra a discriminação racial e a retirada de proteções para pessoas transgênero e intersexo. A organização também menciona a erosão da privacidade e o uso do poder do governo para intimidar adversários políticos, meios de comunicação, escritórios de advocacia, universidades, a sociedade civil e até artistas de comédia.
Críticas à Política Externa de Trump
A política externa da administração Trump também foi alvo de críticas severas. A HRW aponta que as ações e a retórica do governo se alinharam a ideias nacionalistas extremistas, alegando um suposto "risco de apagamento civilizacional na Europa" e utilizando estereótipos racistas para descrever populações imigrantes nos EUA.
A organização citou as operações da agência de imigração dos EUA (ICE), que teriam usado força excessiva, aterrorizado comunidades, realizado prisões indevidas e sido responsáveis por mortes injustificadas em Minneapolis. A mensagem transmitida, segundo a HRW, é de que "o poder dita o que é certo e violações graves não são impedimentos para acordos".
Philippe Bolopion, diretor executivo da HRW, criticou a subversão dos fundamentos da ordem internacional, baseada em regras que visam promover a democracia e os direitos humanos. Trump, segundo o relatório, teria se vangloriado de não precisar do direito internacional, confiando apenas em sua própria moralidade. O governo também cancelou quase toda a ajuda externa dos EUA, incluindo financiamento humanitário vital, e retirou o país de organismos internacionais cruciais para a proteção global dos direitos humanos, como o Conselho de Direitos Humanos da ONU e o Acordo de Paris para o clima.
O Papel da China e da Rússia no Cenário Global
Além das ações da administração Trump, a Human Rights Watch destacou os "esforços antigos" da China e da Rússia para enfraquecer a ordem global baseada em regras. No caso da Ucrânia, por exemplo, os esforços de paz de Trump teriam minimizado a responsabilidade da Rússia por violações graves, em vez de pressionar o presidente russo, Vladimir Putin, para pôr fim a esses crimes. O relatório aponta que Trump teria repreendido publicamente o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, exigindo acordos de mineração questionáveis e pressionando a Ucrânia a ceder grandes extensões de território.
O Desafio para a Ordem Internacional
Diante desse cenário, a HRW fez um apelo urgente para que as democracias formem "uma aliança estratégica para preservar a ordem internacional baseada em regras". O diretor executivo da HRW, Philippe Bolopion, afirmou que "conter a onda autoritária que varre o mundo" é o "desafio de uma geração".
O relatório observa que o sistema global de Direitos Humanos está em perigo, sob grande pressão dos EUA e minado pela China e Rússia. A "recessão democrática", como é chamada, antecede a administração Trump, mas foi intensificada por ela. Muitos países que poderiam liderar a defesa dos direitos humanos foram enfraquecidos por forças internas e pelo receio de ir contra os interesses dos EUA e da China, vendo os direitos humanos e o respeito às leis como obstáculos à segurança e ao crescimento econômico.


