No Dia do Trabalhador, enquanto muitos brasileiros aproveitam o feriado para descansar, um grupo permanece ativo: as pessoas responsáveis pelo cuidado de crianças, idosos e do ambiente doméstico. Esse trabalho, fundamental para o bem-estar das famílias, é realizado majoritariamente por mulheres, que dedicam quase dez horas a mais por semana a essas tarefas em comparação aos homens, segundo dados do IBGE.
A professora de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cibele Henriques, destaca que essa desigualdade tem raízes históricas e culturais. Ela explica que o cuidado é visto como obrigação feminina, reforçado por discursos simbólicos e sociais desde a infância, como a associação de brinquedos domésticos às meninas. “O tempo das mulheres é consumido pelo cuidado dos outros, o que resulta em trabalho não remunerado e sobrecarga física, psíquica e social”, afirma Cibele.
Além disso, a pesquisadora aponta que, mesmo quando possuem empregos formais, as mulheres acumulam funções, utilizando seus dias de folga para realizar tarefas domésticas. A situação é ainda mais intensa para mulheres negras e de classes populares, que não conseguem transferir essas responsabilidades.
Cibele Henriques, que também é co-fundadora do Observatório do Cuidado e do Fórum de Mães Atípicas do Rio de Janeiro, defende a necessidade de uma abordagem econômica para o tema. Ela ressalta que a justificativa do amor e do afeto na realização dessas tarefas acaba por legitimar a exploração do trabalho feminino.
A pesquisadora alerta que a responsabilidade pelo cuidado também contribui para a violência de gênero, pois muitas mulheres permanecem em relações abusivas por não terem autonomia financeira. Cibele defende que a solução passa tanto pela quebra de papéis tradicionais quanto pelo maior envolvimento do Estado, especialmente diante do envelhecimento da população brasileira, que exigirá ainda mais cuidados nos próximos anos.
Segundo ela, políticas públicas que estruturam redes de suporte podem aliviar a sobrecarga das mulheres e promover uma divisão mais justa das tarefas de cuidado na sociedade.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

