Questionamento dirigido a famílias vulneráveis causa revolta e expõe distância entre discurso político e realidade de quem trabalha, mas não consegue comprar a casa própria
Uma declaração atribuída à vereadora Jéssica Ramos Moreno, a Jessicão, durante a discussão de um projeto relacionado à construção de casas populares em Londrina provocou indignação entre famílias que acompanhavam a sessão da Câmara Municipal.
Segundo relatos encaminhados ao Portal, ao se dirigir a pessoas em situação de vulnerabilidade presentes no Legislativo, a vereadora teria perguntado: “Por que vocês não trabalharam para comprar uma casa?”
A frase foi recebida com revolta por pessoas que estavam no local. Entre o público havia famílias de baixa renda e crianças que acompanhavam seus responsáveis durante uma discussão que tratava justamente do acesso à moradia.
Mais do que uma frase infeliz, o questionamento levanta uma questão séria: é possível resumir a falta de uma casa própria à falta de trabalho?
Os números de Londrina indicam que não.
Trabalhar não garante acesso à casa própria
A fala atribuída à parlamentar parte de uma premissa que não corresponde à realidade de milhares de famílias: a de que bastaria trabalhar para conseguir comprar uma casa.
Todos os dias, trabalhadores saem cedo de casa, cumprem jornadas de oito, dez ou até mais horas, recebem salário e, mesmo assim, chegam ao fim do mês sem conseguir guardar dinheiro suficiente para a entrada de um imóvel.
Há mães que sustentam os filhos sozinhas, trabalhadores informais sem renda fixa, idosos que sobrevivem com aposentadorias pequenas, pessoas com deficiência e famílias que gastam grande parte do salário com aluguel, alimentação, transporte, água, luz e medicamentos.
Não são pessoas que necessariamente deixaram de trabalhar.
São pessoas para quem o salário simplesmente não acompanha o preço da moradia.
Por isso, responsabilizar individualmente uma família pela falta de uma casa própria ignora fatores econômicos e sociais que não desaparecem com uma pergunta feita no plenário.
A própria Londrina mostra o tamanho do problema
A declaração causa ainda mais estranhamento quando confrontada com os dados oficiais do próprio município.
Nesta semana, a Prefeitura de Londrina informou que pretende destinar 18 áreas públicas para a construção de até 2.649 moradias de interesse social, dentro do programa Minha Casa, Minha Vida.
Segundo a Companhia de Habitação de Londrina, a Cohab-LD, o déficit habitacional do município alcança aproximadamente 60 mil pessoas. Cerca de 3.500 moradores vivem atualmente em ocupações de imóveis públicos ou privados.
É difícil sustentar, diante desses números, que dezenas de milhares de londrinenses simplesmente não conquistaram uma moradia porque “não trabalharam”.
O problema é muito maior — e muito mais complexo — do que isso.
Uma frase que transfere a culpa para quem mais precisa
O aspecto mais grave da declaração atribuída à vereadora está justamente na mensagem que ela transmite.
Ao perguntar a pessoas vulneráveis por que elas não trabalharam para comprar uma casa, o discurso pode ser entendido como uma tentativa de transferir para o indivíduo toda a responsabilidade por sua condição econômica.
É como se pobreza, desemprego, baixos salários, aluguel elevado, desigualdade social e dificuldade de acesso ao crédito não existissem.
É como se uma mãe solo que trabalha e não consegue financiar uma residência tivesse simplesmente feito uma escolha errada.
Como se um idoso que passou décadas trabalhando e ainda paga aluguel não tivesse se esforçado o suficiente.
Como se uma criança que cresce em uma ocupação carregasse alguma responsabilidade pela situação econômica de sua família.
Essa simplificação não contribui para o debate público.
Ao contrário: atinge justamente quem procura o poder público porque já não conseguiu encontrar uma solução sozinho.
Debater casas populares é legítimo. Humilhar famílias, não
Nenhum vereador é obrigado a concordar com todos os programas habitacionais.
É absolutamente legítimo fiscalizar quem será beneficiado, questionar os critérios de seleção, discutir o custo dos projetos, cobrar transparência e investigar possíveis irregularidades.
Esse é, inclusive, o papel do Legislativo.
Mas existe uma diferença profunda entre questionar uma política pública e dirigir a pessoas pobres uma pergunta que pode ser interpretada como julgamento sobre sua capacidade ou disposição para trabalhar.
Um mandato eletivo traz consigo responsabilidade.
E essa responsabilidade não desaparece quando o debate fica acalorado.
Representantes públicos falam de uma posição de poder. Do outro lado, muitas vezes, estão cidadãos que foram até a Câmara justamente porque dependem das decisões tomadas naquele espaço.
Casas populares não são prêmio para quem não trabalha
Programas habitacionais também não podem ser tratados como uma recompensa concedida a quem supostamente escolheu não trabalhar.
Eles existem porque há famílias cuja renda não permite acessar uma residência pelas condições normais do mercado imobiliário.
No projeto apresentado pela Prefeitura nesta semana, as unidades são voltadas à população em situação de vulnerabilidade social, incluindo famílias que vivem em locais precários e sem infraestrutura adequada.
O município pretende utilizar terrenos públicos que atendem aos critérios da Caixa Econômica Federal e possuem acesso a infraestrutura básica, como asfalto, saneamento, energia e transporte público.
A discussão, portanto, não é sobre entregar gratuitamente um privilégio a quem não quer trabalhar.
É sobre política habitacional para pessoas que o próprio município reconhece que não conseguem acessar moradia digna sem apoio público.
O peso de uma frase dita diante de crianças
Outro aspecto relatado por quem acompanhava a sessão foi a presença de crianças entre as famílias.
Isso torna a situação ainda mais delicada.
Que interpretação uma criança de uma família pobre pode fazer ao ouvir que seus pais deveriam simplesmente ter trabalhado para comprar uma casa?
Que seus pais são pobres porque não se esforçaram?
Que morar de aluguel, em uma ocupação ou em uma residência precária seria resultado de falta de vontade?
Pobreza não pode se transformar em motivo de constrangimento dentro de uma instituição pública.
Ser pobre não retira de ninguém o direito ao respeito.
A crítica deve ser feita à fala e ao seu significado
A atuação de qualquer parlamentar pode e deve ser analisada pela sociedade.
Jessicão tem direito de defender suas posições políticas e ideológicas, assim como qualquer outro vereador. Atualmente, Jéssica Ramos Moreno aparece registrada como candidata a deputada estadual pelo PL nas eleições de 2026.
Mas ocupar um cargo público também significa aceitar o escrutínio sobre aquilo que é dito durante uma sessão oficial.
Neste caso, a crítica não precisa estar relacionada a esquerda, direita ou partido político.
A pergunta é mais simples:
É aceitável dizer a uma família vulnerável que ela não tem casa porque não trabalhou para comprar uma?
Londrina precisa discutir habitação sem criminalizar a pobreza
Londrina possui um déficit habitacional que atinge dezenas de milhares de pessoas e acaba de colocar em discussão um projeto capaz de viabilizar milhares de novas moradias.
É esse problema que deveria estar no centro do debate.
A Câmara pode discutir critérios.
Pode fiscalizar.
Pode propor mudanças.
Pode votar contra ou a favor.
O que não deveria ser naturalizado é a ideia de que uma pessoa pobre precisa provar que trabalhou o suficiente para merecer ser tratada com dignidade.
Famílias que procuram programas habitacionais não estão pedindo para serem julgadas pela sua condição econômica.
Estão procurando uma oportunidade de sair do aluguel, de uma ocupação, de uma área de risco ou de uma situação de vulnerabilidade que muitas vezes atravessa gerações.
E você, o que pensa?
A discussão sobre habitação precisa ser séria, transparente e responsável, mas também precisa lembrar que por trás dos números existem pessoas.
Você considera adequada uma declaração como essa durante um debate sobre casas populares?
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Declaração está registrada em vídeo
O Portal Londrina teve acesso ao vídeo completo da manifestação da vereadora Jessicão, no qual é possível acompanhar o contexto da discussão e a declaração feita durante o debate sobre as casas populares.
No registro, a vereadora questiona as pessoas presentes sobre por que não teriam trabalhado para comprar uma casa, fala que provocou reação e indignação entre famílias que acompanhavam a sessão.
A existência do vídeo permite que a declaração seja analisada dentro de seu contexto original, sem depender apenas de relatos de terceiros ou reproduções isoladas da fala.
O espaço permanece aberto para que a vereadora Jessicão se manifeste sobre a repercussão da declaração, explique sua posição ou apresente esclarecimentos adicionais.




