O Brasil forma mais doutoras do que doutores há mais de duas décadas, mas as mulheres ainda são minoria entre professores universitários e recebem apenas um terço das bolsas de produtividade acadêmica. O fenômeno conhecido como “efeito tesoura” evidencia a redução progressiva da presença feminina conforme a carreira avança, impactando ainda mais as mães cientistas.
A pesquisadora Fernanda Staniscuaski, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, fundou em 2016 o movimento Parents in Science para discutir a parentalidade na pesquisa. O grupo reúne mais de 90 cientistas, majoritariamente mulheres, e busca preencher a falta de dados sobre mães na ciência, além de propor políticas de apoio.
Levantamentos do movimento mostram que mães têm mais dificuldade de permanecer e retornar à docência de pós-graduação após períodos de baixa produtividade, geralmente relacionados à maternidade. Entre as mães que saíram por perda de produtividade, 38% não conseguiram retornar, enquanto entre os pais o índice é de 25%.
A desigualdade é ainda maior para mulheres negras, indígenas e mães de filhos com deficiência, que enfrentam múltiplas barreiras na carreira acadêmica.
Os desafios não se restringem à pós-graduação. Mães estudantes, como a assistente social Cristiane Derne, relatam dificuldades para conciliar estudos, trabalho e cuidados com os filhos. Auxílios financeiros e coletivos de apoio têm papel fundamental na permanência dessas mulheres nas universidades.
O Atlas da Permanência Materna, publicado pelo Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade, identificou que 63 das 69 universidades federais oferecem algum auxílio financeiro para mães, mas apenas 13 estendem o benefício à pós-graduação. Espaços de cuidoteca ainda são raros, mas o Ministério da Educação lançou edital para ampliar a oferta.
Novas legislações também buscam combater a discriminação e garantir direitos, como a prorrogação de prazos para mães e a proibição de perguntas sobre maternidade em processos seletivos. Editais específicos, como o lançado pela Faperj em 2024, destinam recursos exclusivamente para mães cientistas, reconhecendo as dificuldades enfrentadas por elas.
Segundo especialistas, promover diversidade e inclusão na ciência é essencial para ampliar a qualidade das pesquisas e garantir que diferentes perspectivas estejam representadas. A expectativa é de que novas políticas e ações continuem avançando para assegurar o acesso e a permanência de mães na carreira científica.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br








